Portugal
A coragem dos barões
Razão tem, embora certamente com argumentos diferentes, um banqueiro que diz que o ataque veio porque o país “se pôs a jeito”. Pôs-se a jeito, sim, e de que maneira.
Alfredo Prado

O governo só não via ou fazia de conta que não via o que estava a acontecer. A doença da economia nacional não surgiu ontem, nem a semana passada, nem no início do ano. Não caiu do céu, por um qualquer capricho dos deuses.
A fragilidade do país, que na realidade já não é forte há alguns séculos, vem-se agravando ao longo de muitos anos de má governação, de políticas clientelistas criadas para favorecer interesses espúrios, de governos, mais ou menos de tons social-democratas, que funcionam em torno de capelinhas.
A Europa – na qual um dia o dr. Mário Soares disse que tínhamos entrado – tornou-se uma boa almofada. Os jeeps de marca, os carros de alto luxo, as motos de alta cilindrada, os boys de fatos cinzentos ou negros, de estreitas cinturas e pastas de couro, as festas sumptuosas, os esquis deitados nos tejadilhos dos carros, passeando pelas avenidas novas... Enquanto isso, os responsáveis pelo ensino em Portugal ensaiavam receitas do Banco Mundial, os orçamentos para a educação e para o ensino público estreitavam-se, a saúde pública começava a ser sucateada.
Uma élite, arrogante e ignorante, que crescia rapidamente em cima dos despojos da Revolução dos Cravos impunha a moda: a moda dos carros de luxo, a moda dos colégios particulares, a moda dos hospitais privados, a moda das negociatas sem ética, em que as fronteiras entre o público e o privado desapareciam. A pequena e a grande corrupção tornavam-se vulgares.
O país deixou de ter mão-de-obra especializada para passar a ter uma mão-de-obra de coisa nenhuma. A recolha do lixo, o erguer paredes, a limpeza dos shoppings passou a ser trabalho desmerecedor, trabalho para imigrantes, aos olhos de uma élite aculturada e mesquinha, acastelada nos palácios dos poderes, democraticamente eleitos, é claro.
Só com dose dupla de hipocrisia se pode dizer que o país é vítima de um traiçoeiro ataque especulativo, sem precedentes. Razão tem, embora certamente com argumentos diferentes, um banqueiro que diz que o ataque veio porque o país “se pôs a jeito”. Pôs-se a jeito, sim, e de que maneira.
Agora, para salvar a pátria, pedem-se sacrifícios. A quem? A meio milhão de portugueses desempregados que vão vivendo do subsídio de desemprego. A partir de agora terão todos de aceitar os trabalhos que lhes forem destinados, com a remuneração que os empregadores quiserem pagar. A uma classe média empobrecida e deprimida que vive mergulhada na angústia da ameaça do desemprego, da incógnita do futuro imediato dos filhos, sem força para protestar.
É assim que o governo do Partido Socialista mostra aos barões do Partido Social Democrata que é capaz de tomar medidas “corajosas”. E o país vai caminhando, aos tombos. O presidente da República quer que os portugueses depositem as suas esperanças no Atlântico. Mas como fazê-lo, se não nos ensinaram a nadar, se nos cortam, todos os dias, as asas da esperança?
* Artigo originalmente publicado no Portugal Digital (www.portugaldigital.com.br)
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Simplesmente brilhante.
Comentário publicado em 09.08.2010 às 19:35