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15/06/2009 - 09:03

Palavras à Solta

A construção da democracia

A cultura autoritária é ainda muita forte em Angola, por razões históricas e objectivas.

João Melo *

Tenho afirmado muitas vezes, em diferentes ocasiões, que a cultura autoritária é ainda muita forte em Angola, por razões históricas e objectivas. O caldo autoritário nacional provém de três raízes: a cultura autocrática “tradicional” (ou seja, rural), o colonial-fascismo e o modelo marxista-leninista adoptado nos primeiros 16 anos de independência.

Esse problema não tem partidos: atravessa horizontalmente toda a sociedade; a rigor, começa no interior dos lares.

A construção da democracia angolana tem de ser entendida, pois, como um processo. Afinal, e parafraseando o mais do que manjado aforismo, Roma e Pavia não se fizeram num dia. Uma corrida de obstáculos – eis a imagem que me ocorre para representar esse processo. Precise-se: uma corrida de fundo.

A seguir, procurarei abordar, de maneira aleatória e resumida, seis obstáculos que, na minha opinião, é preciso superar para a edificação de uma genuína e responsável cultura democrática em Angola.

O primeiro é a tendência para a pessoalização. Isso tem dois aspectos: por um lado, toda e qualquer crítica é considerada pelos visados (ou pelos seus próximos) como um ataque pessoal; por outro lado, muitas críticas possuem, realmente, uma motivação pessoal, que roça muitas vezes o preconceito boçal (em regra, quando os seus autores são incapazes de formular argumentos a favor das suas teses).

O segundo é a teoria da conspiração. Há ainda muita gente que vive no clima pré-anos 90 do século passado e vê “inimigos” em todo o lado. Destacam-se, entre nós, certos consultores de comunicação mandados vir do estrangeiro e que, nos seus relatórios semanais, levantam hipóteses estapafúrdias acerca de “conspirações” que só existem na sua cabeça.

O facciosismo é o terceiro obstáculo. De facto, ainda é excessivamente frequente ajuizar e valorizar as opiniões conforme a “cor”, em especial partidária, mas não só (também de grupo, por exemplo), dos seus autores. A opinião dos “nossos” é considerada sempre válida, enquanto a dos “outros” é desqualificada ab limine.

Uma variante do facciosismo é o corporativismo. Esse é o quarto obstáculo a ultrapassar para a construção de uma verdadeira cultura democrática entre nós. Os jornalistas de carteirinha que me desculpem, mas essa classe – que tem um papel crucial na edificação da democracia em qualquer sociedade – é uma das mais afectadas pelo espírito corporativista.

O quinto obstáculo é a dependência dos cidadãos, individualmente ou organizados, das macro-estruturas sociais (Estado, partidos, etc.). Isso merece um estudo sociológico aprofundado, que, como é óbvio, não cabe aqui. Mencionarei apenas, entre as várias causas dessa dependência, a estrutura salarial predominante quer no Estado quer em muitas empresas (salário de base reduzido, compensado com subsídios e regalias), assim como a relação clientelar entre a maioria das empresas e o Estado.

Esses dois factores – sem esquecer, claro, as cumplicidades e jogos de interesses, que, como em qualquer outra sociedade, também existem entre nós – limitam a autonomia e a capacidade crítica dos cidadãos, incluindo a desse importante segmento da sociedade civil, que são os empresários. Por isso, a reacção de alguns deles às recentes medidas económicas do governo pode ser vista como um sinal de que, contrariando os mais cépticos, a construção da democracia em Angola está a avançar.

Enfim, o sexto obstáculo que não posso deixar de referir é o recurso ao anonimato para proferir e defender opiniões. Na maioria dos casos, isso serve apenas para acobertar ataques soezes e mesquinhos, intrigas, insultos, calúnias e difamações, ou seja, verdadeiras agressões que, em nome da democracia, a pervertem completamente ou mesmo impossibilitam.

O principal exemplo dessa tendência são muitos sites e blogues que pululam por aí (não todos, claro). Ao qual se pode também acrescentar o abuso de pseudónimos (ressalvam-se os identificados) a que se assiste no jornalismo angolano.

É sabido que o uso de pseudónimos é uma prática universal e antiga. Mas eu penso que, nesta fase, e tratando-se sobretudo de opiniões políticas ou afins, a estratégia mais construtiva e pedagógica para ajudar a criar uma cultura democrática responsável entre nós é escrever (ou falar) e assinar em baixo (ou, como neste caso, em cima).

João Melo, jornalista e escritor angolano, assina coluna no Jornal de Angola

1 comentário

  1. José ("Kahango") Frade comentou:

    Excelente artigo!

    Comentário publicado em 27.07.2009 às 21:20

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